SÍMBOLOS E CORES DA UNIVERSIDADE
José Marcondes Borges (1)
Originalmente publicado em 1964, este artigo é aqui reproduzido com algumas modificações, necessárias à sua adaptação histórica.
Foi escrita a presente exposição com o fito de dar conhecimento do simbolismo e das razões que presidiram a criação do Brasão de Armas e de outros distintivos da Universidade e, ao mesmo tempo, justificar o pensamento de seu criador. Desde a fundação da primitiva Escola Superior de Agricultura e Veterinária, tivemos, sucessivamente, vários emblemas. Isto porque cada geração se julgou no direito de fazer prevalecer o próprio gosto, contra o anterior, esquecendo-se de que os pósteros também usufruíam da mesma regalia. Como resultado desse processo, sofreram a Instituição e os próprios esavianos, incapazes de se reconhecerem no tempo e no espaço todas as vezes que se afastavam da alma mater .
|
 |
Com o advento da UREMG, que sucedeu à ESAV, e a pedido de seus estudantes, o Conselho Universitário determinou que se estudasse o assunto e, ao final, em sessão de 3 de julho de 1952, oficializou os modelos que são apresentados neste trabalho, extinguindo, assim, a caótica pletora de símbolos.
A Heráldica, Ciência do Brasão ou Ciência Heróica, é definida pelo Cônego Manuel de Aguiar Barreiros como a "arte que dita as regras a seguir na formação dos escudos de armas ou nobiliários, interpretando-os ou descrevendo-os". Para Gevaert, a Heráldica é arte quando trata do desenho ou da pintura dos escudos e ciência quando trata da interpretação dos mesmos.
O uso de sinais simbólicos, como distintivos pessoais ou de sociedades, é tão velho quanto as civilizações. Chineses, egípcios, hebreus, assírios, gregos, romanos e outros povos antigos usavam-nos de uma forma ou de outra. Somente há mil anos, entretanto, é que apareceram os primeiros brasões propriamente ditos, em torneios realizados na Alemanha. No transcurso do século XI ou XII, foram fixadas as leis heráldicas - feito atribuído aos franceses - e, no século XIII, a Heráldica atingiu, com a liberdade artística, o seu apogeu, para cair em decadência, no fim do século XVI. Nessa última fase, os arautos de armas fizeram um código, que tomou o nome deles; daí provém o termo Heráldica.
Na feitura de um brasão, deve-se seguir a seguinte ordem hierárquica: esmaltes, figuras, contorno ou forma do escudo e acessórios.
Os esmaltes compreendem os metais, prata e ouro, e as cores, que podem ser divididas em principais: azur ou blao (azul), que representa o ar, goles (vermelho sanguíneo), que representa o fogo, sable (negro), que representa a terra; e secundárias: sinople (verde), que representa a água, e púrpura.
Na escolha do ouro e sable, como esmaltes da Universidade, levaram-se em consideração os pontos a seguir:
1. O simbolismo dos esmaltes é uma questão capital.
2. Uma das leis fundamentais da Heráldica, com base em razões de ordem física e estética, reza: não se pode superpor cor sobre cor ou metal sobre metal.
3. Os escudos mais nobres contêm apenas duas cores. A introdução de uma terceira cor diminui o brasão.
4. A tonalidade das cores não é muito importante, mas, geralmente, preferem-se as cores francas.
5. Dos metais, a prata é o símbolo da pureza de consciência, da eloqüência e da humildade, enquanto o ouro representa a sabedoria, a riqueza, a maturidade de espírito e a inteligência.
6. Quanto às cores, tem-se a seguinte simbologia:
Azur (azul): símbolo do ar, do mar, do desinteresse das coisas terrenas etc.
Goles (vermelho): símbolo do fogo, da vitória, dos heróis e dos mártires, da caridade etc.
Sinople (verde): símbolo da água, da esperança e da fé etc.
Sable (negro): símbolo da terra, das coisas da vontade, da execução etc.
Em virtude do exposto, achou-se que nenhum agrupamento seria mais simbólico para nossa Instituição que o ouro-sable, pois não é a Universidade fonte de sabedoria e a terra seu objetivo?
Deve-se ainda notar que é uma belíssima combinação, largamente empregada, desde remota antigüidade, entre os mais nobres brasões europeus.
Em Heráldica, os esmaltes são independentes das figuras. Estas e aqueles completam-se, mutuamente. Na escolha da figura, estudaram-se muitas sugestões, tais como livro, árvore, globo etc., e fixou-se a do universo, por lembrar o nome que se desejava simbolizar. Quanto ao tipo de globo, pensou-se, inicialmente, na esfera armilar, mas, considerando a dificuldade de sua execução, em certos casos, decidiu-se, finalmente, pelo globo, em projeção, tendo uma estrela característica e próxima ao Trópico de Capricórnio, para servir de sinal de nossa posição geográfica.
Muitos perguntam por que não colocar a UFV no escudo, o que o tornaria mais reconhecível. É preciso notar que, em Heráldica, a linguagem é essencialmente simbólica, e o uso de letras só apareceu na sua fase de decadência. Nossa Universidade, pelo seu valor, é que deverá fazer seu escudo reconhecido por todos, tal como a cruz, que é o maior de todos os símbolos, por representar idéias imperecíveis.
Como se sabe, a Heráldica tomou grande impulso nos torneios, e a forma dos atuais escudos é derivada justamente do instrumento de defesa usado pelos cavaleiros. Mais tarde, a fantasia dos artistas modificou o primitivo desenho, criando, muitas vezes, formas até deselegantes. Dentre as várias formas de escudo, tais como: arredondada (forma espanhola), aguçado na ponta (forma francesa), irregular (forma alemã) e com entradas curvas nos lados (forma italiana), preferiu-se adotar a clássica, que, além de bela, dá mais majestade ao brasão da Universidade.
Considerando que o nosso escudo é constituído apenas de um globo em campo pleno, o mais nobre dos campos, deixam-se de lado explicações sobre as partições do campo, que podem ser primitivas (escudo partido, cortado, tronchado, talhado, esquartelado etc.) ou secundárias (faixa, banda e outras). Resta falar sobre os acessórios. Estes, como o próprio nome indica, não são absolutamente necessários no brasão, tendo o escudo, por si mesmo, valor e simbolismo suficientes para definir a Instituição. Não são, porém, sem valor, tanto que têm sido usados, desde os áureos tempos da Heráldica, distinguindo vários predicados das pessoas ou instituições às quais os brasões pertencem.
Os acessórios que têm significado heráldico são: o timbre, a cimeira, os lambrequins, as insígnias, a divisa, as condecorações, os tenentes, o pavilhão real e as bandeiras, sendo os demais simples ornamentos. Aparecem conforme o brasão, não havendo necessidade de existirem todos, nem serem das mesmas cores do escudo.
O timbre representa o elmo do cavaleiro, o qual é empregado, atualmente, apenas nos escudos dos militares. O papa usa a tiara; cardeais, bispos e outras autoridades eclesiásticas, o chapéu ou capelo; os reis, a coroa real; os duques, a coroa ducal etc. Achou-se que a cornucópia, símbolo da riqueza, ficaria bem como timbre da Universidade, porque é justamente a obtenção de riquezas o coroamento do nosso esforço. Em nosso escudo, a cornucópia é de cor vermelha e seu conteúdo, ouro.
A cimeira representa o tufo que os cavaleiros usavam sobre o elmo. Atualmente, empregam-se como cimeira, em maior escala, pequenas figuras de animais. Em nosso caso, poderíamos, por exemplo, usar como cimeira a repetição, em ponto menor, do globo do escudo, ou a árvore, ou outra figura de valor simbólico e decorativo. Pensou-se, todavia, que ela poderia ser omitida.
Os lambrequins representam os penachos que caíam do elmo. Para nós é dispensável, pois não somos militares.
As insígnias têm valor apenas como reforçadoras do timbre. É o caso das chaves no escudo pontifício e do báculo ou mitra para os bispos. Preferiu-se prescindir delas no escudo em foco.
Não foi difícil a escolha da divisa. Até o advento da Universidade o mote era: Estudar, Saber, Agir e Vencer, que lembrava, em suas iniciais, o primitivo nome da Escola Superior de Agricultura e Veterinária - ESAV. Nada melhor, portanto, que manter tão significativa, simbólica e tradicional divisa. Na transposição para o latim - língua morta e, portanto, imutável - teve-se que alterar ligeiramente o sentido da primeira palavra, isto porque o verbo estudar corresponde ao "studere" latino, começado em "s", o que alteraria a primeira inicial. Aprender, que é justamente o objetivo do estudo, é traduzido em latim por Ediscere, o que garante a continuidade da sigla - ESAV - no brasão da Universidade, ficando a divisa como: Ediscere, Scire, Agere, Vincere.
No brasão, à maneira universal, o mote deverá ser inscrito no verdadeiro gótico, sendo de notar que a caligrafia geralmente conhecida como gótica chama-se, na realidade, inglesa antiga.
Os suportes, ou tenentes, figuras humanas ou de animais que parecem sustentar o escudo, são encontrados em quase todos os brasões que possuem acessórios. Constatou-se que muitos fizeram um cavalo de batalha em torno dos touros alados, propostos como tenentes. Alguns, por exemplo, criticaram a cor, achando o vermelho muito agressivo. Duas razões determinaram sua escolha. A primeira, que o ouro-sable é, por natureza, uma bela combinação, porém triste, necessitando de uma cor viva para tornar o brasão mais notado, o que, de fato, acontece, pois os touros alados têm sido bastante discutidos. A segunda é que, na bandeira, se deve usar as cores do brasão, e é rara a que não possui o vermelho em sua constituição; embora esse distintivo não esteja subordinado às leis heráldicas, tem, todavia, o seu simbolismo. Será justo defendermos princípios e não esperar a vitória desses princípios? E o que indica o vermelho senão a vitória? Assim, por razão simbólica e estética, devemos ter o vermelho em nosso brasão e em nossa bandeira.
Quanto à figura, por que criticá-la? O touro é, segundo Gevaert, o sinal da força, o que satisfaz o simbolismo, e as figuras quiméricas vêm sendo usadas nos brasões desde a fase clássica da Heráldica. Ainda hoje são vistas nos escudos mais nobres e antigos. As figuras, ao natural, apareceram justamente na fase de decadência dessa arte.
O pavilhão ou manto real é usado apenas em escudos de reis, do mesmo modo que as bandeiras são vistas somente em escudos de militares e de estados.
É de justiça salientar o nome do professor Alfred Beck Andersen, artista responsável pela execução gráfica dos projetos e dos modelos adotados oficialmente.
Na transição da ESAV para a UREMG, o arraigado sentimento em relação às escolas era, para muitos, mais importante do que em relação à Universidade, razão pela qual foi necessário, para satisfazer a exigência dos uremgianos, brissar o brasão, isto é, modificá-lo, com o acréscimo de símbolos, específicos para cada escola, mas, mostrando sua descendência do brasão universitário. As figuras, abaixo, mostram esses símbolos, hoje de valor histórico apenas.
As profundas modificações havidas na estrutura da Universidade, até mesmo pelo desaparecimento das escolas, tornaram o brasão único, o que, entre outras vantagens, facilita o reconhecimento mútuo dos filhos da Instituição, até por simples emblemas de lapela. Cumpre, assim, uma de suas importantes finalidades.
Com o advento da Universidade Federal de Viçosa, não houve necessidade de modificar o brasão ou a bandeira da Instituição, porque nada está a exigir qualquer alteração do simbolismo, das cores, da configuração ou da estrutura artística.
(1) Ex-Professor da ESAV, da UREMG e da UFV. Ex-Secretário Geral de Planejamento. |